Tanto pedi, que acabei ganhando dois exemplares do mesmo livro. Com dois "Tantas Palavras", de Chico Buarque, fui ao shopping trocar um deles. Trouxe Lya Luft e Martha Medeiros. Só crônicas. Amanhã é aniversário da
Mumumu, e sábado, da
Fadinha; voltinha pra escolher alguma coisa que fosse bem a cara delas. Achei. Entre uma coisa e outra, o relógio marca duas horas da tarde.
A gente quebra regras, sim, mas tem de agüentar as conseqüências, não é mesmo? Pois eu tenho uma regra: não como no McDonald's.
A realidade que se apresentava, no entanto, já não era nada boa; a pressão começava a cair, e eu queria chegar em casa a tempo de ver o penúltimo capítulo de "Chocolate com Pimenta". Preciso de alguma coisa salgada. Não quero parar, sentar, essas coisas. Em casa, comida fresquinha me esperando. Pensei: batata frita. Há tempo estou com uma tremenda vontade de comer batatas fritas. Chegou a hora. E onde? A melhor é a do MC Donald's (leia-se "emici donáldis"). Um dilema. Quebrar a regra? Bem... Já aprendi que não se deve ser radical. Então, me rendi ao desejo e à necessidade de sódio, e lá fui eu. Fila e tudo. Custava R$ 3,25. Dei uma nota de R$ 50,00 - era a que eu tinha (mais tarde descobri que tinha uma de vinte, mas era tarde).
A gente quebra regras, sim, mas isso traz conseqüências. Às vezes, castigo, mesmo.
Pois ele veio depressa: eu recebi 32 reais em notas de dez e de um, e todo o restante do troco em moedas de R$ 0,25. Elas brilhavam, reluziam, de tão novas. Mas eu, realmente, mesmo eu, que normalmente prefiro moedas às notas velhas e fedorentas, não acreditei no que estava vendo. A mocinha espalhando as 59 (isso mesmo! cinqüenta e nove) moedas de vinte e cinco centavos ali, no balcão. E perdia a conta, e voltava a contar... Enquanto isso, eu imaginava se conseguiria levar o peso daquele dinheiro na bolsa e se haveria onde carregar, porque minha carteira possui um porta-moedas e não um cofre... E a mocinha contava e recontava e contava de novo... O tempo passando, e na minha cabeça a palavrinha martelava: castigo, querida, castigo. Quem mandou? Batatinha do Tio Sam... Financiando a guerra do Iraque... Essas coisas. Até que, enfim, a menina achou que o troco estava correto. Ela. Porque eu não.
Sorrindo gentilmente, eu disse olhando nos seus negros olhos:
- Sabe que eu gosto muito de moedas? Até prefiro moedas, no lugar de notas. Mas, convenhamos... Como você acha que eu vou conseguir carregar esse dinheiro todo? - o dinheiro não cabia nas duas mãos da moça, para você ter uma idéia.
Não tão delicadamente, ela me respondeu:
- Só tenho assim.
- Veja se no outro caixa não há algumas notas, por favor.
- Fulana (
sei lá qual era o nome da colega) troca cinco? - ela só se dispunha a trocar cinco reais, dos quase quinze, percebe?
Olhou pra mim, e fazendo um movimento com a boca, típico de quem está rindo por dentro, não disse nada. Apenas continuou me olhando.
Eu já havia comido umas três batatinhas, mas não tive dúvida:
- Então eu não quero mais, tá bom? - e devolvi o saquinho, estendendo a mão para receber de volta minha nota de cinqüenta.
Os olhos da menina pela primeira vez me levaram a sério. Ainda assustada, ela olhou para os lados e se dirigiu ao primeiro rapaz de camisa branca que passava. Gaguejando, ela perguntou:
- Você tem nota?
O rapaz, que devia ser o gerente, olhou abismado para as moedas, me olhou, olhou de novo, meio incrédulo, e colocou no balcão notas novinhas de dois reais. O suficiente para que eu conseguisse sair dali com a coluna esticada. Mas a mocinha, tadinha, ainda meio enrolada, contou quarenta e seis reais. Deu-me duas moedas de um e dois reais em moedas de vinte e cinco centavos.
- É isso? - eu perguntei.
- Sim. Quarenta e seis reais.
- Mas ainda falta...
Sem esboçar qualquer reação, pegou três moedas de R$ 0,25 e me entregou.
Um sorriso, de novo, e me dirigindo ao gerente apenas com os olhos, fiz com que ele entendesse que agora eu só queria as moedas inevitáveis. Não sei se fui muito enfática - eu sei mesmo ser enfática, só com os olhos - ou se ele era mesmo bem esperto, mas sei que percebeu e compreendeu exatamente qual era a idéia.
Saí de lá com R$ 46,00 em notas, com apenas três moedas, e com quinze minutos a menos do meu dia, numa operação que deveria durar menos de dois minutos, já que a porção de batatas já estava pronta, antes de eu chegar.
Continuo gostando mais de moedas que de notas velhas e fedidas. Mas tudo tem limite!
Moral da história?
Você pode até quebrar uma regra; mas tenha tempo para contar em quantos pedaços ela se partiu.