Ontem fui à
exposição da Clarice Lispector, no CCBB.
Fiquei aborrecida.
Se é "exposição", tem de estar exposta, não escondida.
Primeiro de tudo: não há nada, na fachada do prédio, que indique que a obra de Clarice está exposta, ali, muito menos por qual período, como sempre costumam fazer.
E então você entra, passa por todo o "hall", no térreo, procura qualquer sinalização e nada!
Dobra à direita, onde ficam as bilheterias e onde são expostos os cartazes dos eventos da temporada. Nada. Absolutamente nada. Chego a pensar que por alguma razão a mostra foi adiada e não estreou no dia 19, terça-feira passada, como anunciado.
Resolvo subir ao 1º andar. Saio do elevador e vejo um grande painel, de uma exposição de telas de um senhor chamado "Paulo alguma coisa". Não me interessava
(daí o "alguma coisa"), porque eu queria ver e ler Clarice.
Um livro de visitas. Não assinei. Eu queria a Clarice.
Fiquei ali, pelo corredor, já me dando conta de que, se é que estava ali, estava escondida, e isso era mesmo um absurdo.
Entrei, arriscando, já que não havia jeito, e fui passando direto pelas telas, olhando com cara de pouco caso, porque pra mim elas estavam roubando o lugar da minha escritora querida. Perdão... ela não gostava de ser tida como "escritora". Caminho até o final do salão e me dirijo a um Segurança, uma jovem sentada em sua cadeirinha, tomando conta das obras do "Seu Paulo":
- Onde está a exposição da Clarice Lispector???
- Ah! É por aqui mesmo. Lá no final daquele salão, depois daquela parede, 'tá vendo?
- Sim. Estou vendo o salão e a parede... Mas e o respeito? Não estou vendo... Que falta de respeito é essa com Clarice Lispector?? - eu perguntei educadamente, mas indignada.
Ela respondeu:
- É... 'tá escondida. A gente tem que explicar mesmo, senão as pessoas vão embora.
Isso! As pessoas estão indo embora, você acredita?? Pois é...
Muito revoltada com o descaso, atravessei o salão resmungando, tal qual uma velha rabugenta, me dirigi para o outro, fui atrás do tal salão que ficava atrás da tal parede, e adentrei, enfim, ao maravilhoso mundo das palavras bem ditas, palavras benditas.
Ai, que delícia!
Bem, eu realmente pretendia me deliciar com o que lia e sentia, enquanto estava ali, mas um senhor muito necessitado de aparecer decidiu analisar o cigarro e o comportamento de Clarice Lispector, e começou a "decifrar", com suas duas acompanhantes, a personalidade dela, e discutir se Clarice fumava porque tinha medos, ou porque era solitária, insegura, desandando para uma análise psicológica dos jovens de hoje, os significados do fumar e blá-blá-blá. Totalmente sem-noção, aquela moça, ops!, aquele rapaz, de gestos e voz exagerados, se debatia, falando coisas que não faziam o menor sentido, mas posando de psicanalista, e atrapalhando toda a solenidade do ambiente. A única sonoridade que se buscava, ali, era o eco das palavras escritas e gravadas, na parede, que retumbavam na alma da gente. Mas ele conseguiu me desconcentrar... Não adiantou minha cara feia. Certas espécies de gente são imunes a manifestações discretas de desaprovação. É preciso censurar aberta e claramente, mas como eu não estava ali pra isso, saí daquela sala e me dirigi à seguinte, já dando por certo meu retorno, num outro dia, num dia em que haja a necessária "paz ambiental".

Tendo tomado distância daquele barulho inconveniente, fui passeando pelas salas e me detive naquela em que é reproduzido um vídeo com uma
entrevista que Clarice deu à TV Cultura, em 1977, a última que deu, e que deu sob a condição de que só fosse ao ar depois de sua morte. Revejo sempre que posso. Pela entrevista, veio o
PRÊMIO APCA - Melhor Entrevista do Ano: Clarice Lispector por Júlio Lerner em Panorama. De repente... quem chega? Pois é: o joão-comentarista-psicólogo-clodovil-fuxiqueiro-psicanalista-canabrava-sem-noção. Quando viu um cigarro na mão da entrevistada e começou novamente a mesma ladainha... eu não me agüentei. Fiz um "Pssssssiu!!!!" tão enfático, que ele, um pouco sem-graça e muito contrariado, me olhou, bem como as duas senhoras que o acompanhavam, tratando de se recolher ao cantinho da parede e ficar quietinho. Ora, a mulher já falava um Português enrolado, o vídeo é antigo, a sala pequena, emoção pura, as pessoas em silêncio sepulcral, pra beber as palavras... e ele ali, jorrando as dele, em profusão, molhando a gente! Quanta inconveniência!
Segui para a penúltima sala. Quatro paredes formadas por duas mil gavetas, onde 65 delas podem ser abertas. Lá dentro, cartas manuscritas, exemplares de livros que escreveu, de outros, que ganhou, com dedicatórias assinadas por Érico Veríssimo, C. Drummond, Antônio Callado... Fotografias, com Tom Jobim, Oscar Niemeyer, M. Scliar, Milton Nascimento... Um sonho!
M. encontrou uma das duas cartas que ela escreveu ao Presidente Getúlio Vargas, na qual pede a cidadania brasileira, requerendo que o prazo exigido, de um ano, fosse desconsiderado, no seu caso, e explicando por que. Muito linda, a carta. Muito intensa.
Ao meu lado, mexendo numa outra gaveta,
Thiago Lacerda, que assinou o livro de visitas umas dez linhas antes de mim e tem uma letrinha muito bonita - minha mãe sempre o achou muito lindo, e eu discordava, dizendo que era muito cabeçudo, cabeça desproporcional ao restante do corpo. Vi de pertinho, ali do lado. Cabeçuda sou eu, que não acreditei na minha mãe. Ele é lindo, sim, pode acreditar na mamãe. E a gente, que pensa que os atores bonitinhos só se preocupam com a beleza do corpo... Lá estava ele, bebendo da água que embeleza a alma e fortalece a mente. Uma simpatia, aceitou tirar um tantão de fotos, na saída do prédio, com fãs que tinham vindo de algum lugar distante do Brasil para um outro evento que também acontecia no CCBB, o Festival do Folclore Brasileiro. Muito gentil, não posou de estrela.
A última sala é a que apresenta aparelhos de tv ligados, com vídeos de "pessoas comuns" lendo trechos de livros de Clarice. Pendurados, pela sala, diversos exemplares de variados títulos, e no chão, banquinhos rústicos de madeira, onde você pode sentar e ler, ou apenas acompanhar a leitura na tv.
Lembro que numa das primeiras salas as paredes são todas de gesso, com textos de Clarice gravados em baixo relevo, vazados.
Lembro também que M. imaginou uma parede dessas em casa e eu viajei na idéia! É. Viajei! Pensei no meu quarto, no escritório... Na sala?! Fiquei ali imaginando que tipo de letra, que cor, se gesso branco ou colorido. Existirá colorido? Fiquei ali, viajando... quando me dei conta: difícil vai ser escolher que trechos gravar na parede...