quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Clarice Lispector - a última entrevista - Um post imenso, que vale a leitura

A propósito da exposição "Clarice Lispector - A Hora da estrela", que, enfim, chegou ao Rio de Janeiro, deixo aqui a última entrevista concedida por Clarice, e que mencionei no post de segunda-feira, dividida em cinco vídeos. A entrevista, você sabe, foi concedida sob a condição de só ser exibida depois de sua morte, o que aconteceu meses depois. Ganhou o Prêmio APCA de "Melhor Entrevista do Ano" e é mesmo um primor, um legado.
Há silêncios e pausas que podem ser inquietantes, podem calar fundo, profundos...
Há angústias e uns quase-choros, talvez.

Se antes você quiser ler o depoimento de Júlio Lerner, o entrevistador, e da emoção que tomou conta dele naquele momento único e inesquecível, sente-se e leia. Deleite-se. De certa forma, morra de inveja. Vamos lá?

Relato de Júlio Lerner:
(transcrição)

De minha sala na redação de "Panorama" até o saguão dos estúdios tenho de percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada... Talvez falar sobre A Paixão Segundo G.H... Ou quem sabe A Maçã no Escuro e Perto do Coração Selvagem... Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em apenas cinco minutos consegui um estúdio e uma equipe fora dos horários normais para entrevistá-la. São quatro e quinze da tarde e disponho apenas de meia hora... Às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o estúdio B...

Estou correndo e antes mesmo de vê-la, a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista... Eu odeio a TV brasileira!... Só meia hora para ouvir Clarice... O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha... Olho o relógio, não consigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio, estou desconcentrado, atinjo o saguão dos estúdios e já a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio de um grande alvoroço...

Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a um seu semelhante... Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para lhe explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli (ela não sabe que eu sei, sua melhor amiga), entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segura apenas um maço de Hollywood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados, Clarice me olha, o setor técnico envia pelos alto-falantes o agudo sinal de mil ciclos, o olhar de Clarice me interroga, só disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, e fica encolhida e calada, o calor está ficando insuportável e o ar condicionado não funciona, está quebrado, chega o aviso que em um minuto o VT já estará ajustado, são quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela, preocupado em ajustar uma questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do Terceiro Mundo que me possibilita estar agora frente a frente a ela, Clarice me olha, medrosa, assustada e seu olhar me pede para que eu a tranqüilize...

-"Ok, Juliooooo... tudo pronto", a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda a equipe para sair, cabo-man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço, Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás, peço silêncio total e depois de uns dez segundos ecoa um "gravandooooo"...

Silêncio.

Olga e Miriam na parte escura de um dos lados, Moacir escondido atrás da câmera, eu que me posiciono ao lado da câmera para não aparecer, a fim de que o público não descubra minha impiedosa cara-de-pau e ... Clarice. Solitária, no centro do estúdio... Não conversamos antes e disponho apenas de 23 minutos... Estou completamente desconcentrado, fico um longo minuto em silêncio fitando Clarice, estou oco, vazio, não sei o que dizer... Clarice me olha, curiosa mas vigilante, defendida... Sou o senhor do castelo e - prepotente - guardo comigo a chave desta prisão... Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.

Não sabes, Clarice... Te conheci agora, porém te conheço há muito tempo... Te amo, te respeito e no entanto agora começo a te invadir. A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista [...]

A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Quero mergulhar, por vezes consigo... Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar mas logo escapa e volta, e me pega, e me sugere o longe e o não-dizível, depois se cala... E quando nada mais espero, ela volta a falar... Faço uma anti-entrevista, pausas, silêncios, Clarice agora está fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.

Acho que ela vai se levantar a qualquer instante e me dizer: "Chega!". Clarice pressente que por trás de meu sorriso aparentemente compreensivo e de minha fala suave esconde-se um ser diabólico autodenominado "repórter" e que quer possuir sua intimidade. Seu corpo exprime receios, ela me afasta, mas de novo me atrai, suas pernas se cruzam e se descruzam sem parar e telegrafam que de repente ela poderá se levantar e partir.

Avanço, invado, penetro, novamente invado e estrategicamente recuo, mais uma vez penetro. E minha tola vaidade de macho sopra ao pé do ouvido para que eu vá em frente, prossiga.

Estou dividido mas prossigo, mandam um sinal que tenho só cinco minutos... Agora quatro... Três... Sou oportunista descarado... Faltam dezessete para as cinco... Sinto que não a verei nunca mais, estou emocionado, mais duas ou três perguntas e a entrevista se encerra com Clarice dizendo: "... bom, agora eu morri... Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto estou morta. Estou falando do meu túmulo..."

Silêncio pesado no estúdio B. Um longo, e triste, e terrível silêncio.
A premonição.
Está encerrada a entrevista.

Clarice se levanta, nada digo, ajudo-a a tirar o microfone de lapela.
Silêncio milenar no estúdio.
Miriam, a estagiária, chora baixinho, Olga está calada, Clarice e eu nos olhamos no fundo dos olhos...





















Se você chegou até aqui, acompanhando tudo, sabe, como eu, que valeu; cada minuto, valeu.

20 comentários:

Márcia(clarinha) disse...

Imenso, maravilhoso, triste, surpreendente e intenso, como Clarice, não poderia ser diferente.

lindo dia bunita
beijos

Anônimo disse...

Essa entrevista, para o entrevistador, deve ter sido insuportavelmente difícil. Pelo vídeo, dá medo olhar os olhos dela, que dirá ao vivo. Ela é profunda demais e parece que aqueles olhos perscrutam o interior de quem os olha, e descobrem todos os segredos de cada um.
Ela é linda e tão ela.

Beijo.

Amigao disse...

Acho que vou passar o dia por aqui vendo esta entrevista.

Beijão!

annah disse...

Não consigo ler Clarice. Não consigo começar Clarice. Não consigo terminar Clarice. Ou talvez, seja medo de bater à porta e mergulhar no inconsciente dela.
É justo. Ela te toma!
Fujo. Isso me esgota, tira minhas forças.

Chorei ao vê-la nessa entrevista.

guiga disse...

Linda, vou de férias!
Volto dia 15 e venho logo visitar-te!
Beijossssssssss!
Até lá!
*.*

Mário disse...

Adorei a entrevista. Não tinha assistido ainda. Muito obrigado.

Du disse...

Putz, que lindeza de post, Suzi!
Obrigada pela oportunidade de ver e ouvir Clarice!

Deu pra sentir na pele a aflição do entrevistador...

Beijos

Inerte disse...

Dna. Clarice impressiona pela sinceridade e simplicidade em se comunicar. Não faz questão de ser simpática. Apenas é o que é. Se está cansada, diz que está cansada, se não quer responder uma pergunta, diz que não vai responder... acho que é por isso que aprendi a apreciar o que ela escreveu. Obrigado pelas boas vindas, amei.

Suzi disse...

Sim, Clarinha. Acho que ela é mesmo intensa. Não sei se consigo palavra melhor pra descrever Clarice... Intensa.
;o)

já gora... linda noite pra ti!
Bj!

Suzi disse...

Olhando nos olhos dela, Ju, não sei se é medo, o que sinto. Mas eles me prendem. É... talvez eu me assustasse, sim, se fosse a entrevistadora... os silêncios dela me inquietam e me fascinam.
Linda mesmo, ela.

Bj.

Suzi disse...

Quando puder venha mesmo, Amigão. Prometo que valerá!

Suzi disse...

Meu olhos também ficam marejados, Annah. Sempre que vejo. Sempre.

;o)

Suzi disse...

Boas férias, Guiga.
Boas férias e até a volta!

;o)

Suzi disse...

Boa demais, né, Mário? Muito, muito boa!

;o)

Suzi disse...

É, Lu, a beleza está mesmo na própria Clarice, eu acho...

;o)

Beijo!

Suzi disse...

É, inerte, acho que é também por isso que aprendemos a apreciar o que ela escreveu. Ela desabafa, às vezes tão profundamente que nem ela mesmo entende (como em "O ovo" e na história do mineirim, né? rs*)

Suzi disse...

Xiiiiii... DU, eu te chamei de LU!!!

Tssss... foi mal.
DUDUDUDUDUDUDUDUDU!!!

Mariah disse...

querida suzi,
não tenho palavras. e olha que isso é a coisa mais rara de me acontecer. nunca antes havia assistido a este vídeo na íntegra...confesso...achei triste, angustiante...dá vontade de falar com ela..."não Clarice, não desanime, não desista, não morra...se você continuar quanto ainda o mundo vai ganhar...quantas palavras suas ainda vamos ler...quantas Macabéas ainda virão à luz...não Clarice...deixa disso, fuma um cigarro aí e fica bem..."
quando a gente começa a ler Clarice se torna íntima dela...próxima, a gente lê sua alma, ela escreve com a alma...
beijos querida
achei fantástico.
mariah

Suzi disse...

é, mariah... mexe com a gente, né?
no fundo, mais profundo.

;o)

beijos!

inerte disse...

Fiquei super emocionado durante a exposição que vi hoje no CCBB. Tava tudo muito lindo! Aquele lance das gavetinhas... Tudo de bom... Amei as paredes...