Eu tenho o costume do conversar com os prestadores de serviços, com o pessoal da limpeza, com o ascensorista. Lá no trabalho, por exemplo, tem a menina que vende Avon; eu sempre compro alguma coisa, mesmo quando não preciso. Outras pessoas compram, também, mas acho que ninguém dá muita idéia pra ela. Tem quatro filhos, não tem marido, às vezes tem, faz aniversário em novembro, coisas que só sei porque converso com ela. É vero que sempre tem aquele pessoal que abusa. Se é mulher, se acha amiga íntima e tal; se é homem, acha que você tá dando mole - como o ascensorista que, porque eu dava "bom dia!" sorrindo, se achou no direito de me dar um beijo na véspera do recesso, sob o pretexto de votos de um Feliz Natal; no rosto, é claro, mas, convenhamos, totalmente despropositado, além de ter me dado um susto do caramba! Entrementes
(acho essa palavra "entrementes" muito charmosa!), é um risco que ainda acho que vale a pena correr.

Dia desses eu estava no mercadinho aqui perto de casa. Aquele,
do loiro, lembra? Pois é. Queria comprar besteirinhas básicas, como azeitonas, champignon, queijinho... Eu sempre peço pra provar a azeitona, que não pode estar salgada demais nem de menos; então, preciso ser simpática com os atendentes, porque, afinal, vou comer de graça... Além disso, não quero que pensem que sou daquelas mulheres bem bestas ou bem nojentas. Peço pra provar e já vou batendo papo. Peço azeitonas sem caroço, recheadas ou fatiadas, porque não compro aquelas com caroço. E não é só pela preguiça... é uma questão de economia, mesmo, porque meu dinheirinho só entra na conta na base do suor, e então não pode escorrer pelo ralo, saca?
E foi no papo com o atendente da seção que eu mais me diverti, naquele dia.
Ele disse que a azeitona com caroço estava bem mais barata e que não comprava das outras porque eram bem mais caras. Dei razão, quanto ao preço, mas apostei com ele que, quanto ao custo, ele estava errado. Eu disse que o caroço pesava e que se a gente não come o caroço, íam caroço e dinheiro pro lixo. Ele não acreditou.
Pegou uma azeitona com caroço, comeu, e colocou o caroço na balança. Eu ri.
Ele disse: "- Viu? Não pesa nada; não faz essa diferença que você está pensando."
Aí eu fiz o desafio: "- Pegue seis azeitonas com caroço e pese. Digite o preço e veja quanto vai dar."
Ele fez. A essa altura, dois adolescentes que esperavam pra comprar queijo começaram a se divertir também, com o papo.
O quilo da azeitona com caroço era algo em torno de oito reais, um pouco mais; a recheada custava mais de onze, o quilo. Pedi, então, que ele pegasse outras seis azeitonas, mais ou menos do mesmo tamanho, mas sem caroço, e que pesasse. A outra atendente já se aproximou pra acompanhar mais de perto. Chegou outro cliente.
Já éramos seis pessoas em plena diversão com a experiência, e ainda mais com o resultado: as seis azeitonas com caroço custavam beeeeem mais que as seis azeitonas recheadas, sem caroço. Todos acharam incrível!
Não consigo me lembrar os valores exatos, mas foi muito engraçado constatar que às vezes a gente pensa que está economizando, quando, na verdade, está gastando dinheiro à toa.
Eu disse ao atendente que sempre desconfiara dessa diferença no custo e que, seguindo minha intuição, sempre apostava nas verdinhas sem caroço, mas que nunca havia feito o teste da balança.
Agradeci por ele ter tido a paciência de testar a minha teoria, enquanto ele me agradecia por tê-lo convencido, com prova, de que é menos trabalhoso e bem mais barato comprar azeitonas mais caras.
Os adolescentes se amarraram na brincadeira e ainda me acharam o máximo!!! - Imagine... sou apenas uma dona-de-casa "esperta da mente", como diria H.