Não sou da noite; sou do dia, sou do sol. Não sou de ficar "virada", amanhecer na rua, passar noites em claro. Não troco por praticamente nada uma boa noite de sono. Assim, de certo modo, estar acordada à uma da manhã é novidade, na minha vida. Ou, ao menos, não é hábito.
Aqui estou eu, cansada, cabeça quebrada após terminar a declaração de rendimentos... é, eu sou brasileira e não me adianto nunca! Reza a minha cartilha que Imposto de Renda foi feito pra ser entregue no último dia, pra se passar o resto do ano inteiramente na expectativa: "caí? não caí?? caí? não caí?? caí? não caí??", e no Natal sorrir quando, enfim, chega a cartinha da Receita anunciando a disponibilização da devolução!
Preparo-me para desligar o computador e então entra pela porta da varanda, aberta, uma brisa amena e um cheiro suave, de terra molhada...
Ventou muito, no caminho de volta pra casa, mais cedo. Redemoinho, folhas girando ao vento, amêndoa que cai na cabeça de um pedestre, barulho de folhagens, balanço dos ramos das árvores, prenúncio da chuva, a virada do tempo.
E neste exato momento, enquanto guardo papéis e recibos nas pastas, enquanto penso num chá das cinco por volta das duas da manhã, o cheiro da terra molhada de chuva inunda, se espalha, invade os quartos, expande-se, perfuma a casa inteira, a sala, a alma... Respiro fundo. Inspiro. Suspiro. A chuva cai, eu lembro de Toquinho e Benjor, e penso... "Que maravilha!"
"Lá fora está chovendo
Mas assim mesmo eu vou correndo
Só prá ver o meu amor
Ela vem toda de branco
Toda molhada e despenteada, que maravilha
Que coisa linda que é o meu amor
Por entre bancários, automóveis, ruas e avenidas
Milhões de buzinas tocando sem cessar
Ela vem chegando de branco, meiga e muito tímida
Com a chuva molhando o seu corpo
Que eu vou abraçar
E a gente no meio da rua do mundo
No meio da chuva, a girar, que maravilha
A girar, que maravilha
A girar"
