
Eu estudava Pedagogia mas já tinha um pezinho no Direito. Na verdade, minha relação com as leis, direitos e deveres é muito anterior. Minha simpatia pelos mais fracos, pelos que não podiam oferecer resistência, dada alguma condição pessoal, sempre foi muito forte.
Eu era professora, numa escola, e nosso salário atrasava. Comecei a dar aula muito cedo, quando ainda nem era formada, e fui aprendendo enquanto ensinava...
Naquela escola, em que nosso salário atrasava mais de quinze dias, todos os meses, numa época em que a inflação mensal no país era de cerca de 80%, 90%, fazia uma tremenda diferença qualquer dia de atraso no pagamento. Perdíamos dinheiro duas vezes: uma, pela desvalorização daquilo que chegava as nossas mãos como salário; outra, porque as contas pagas com atraso sofriam um acréscimo assustador, com os juros de mora e a correção.
Eu era estudante, e embora não fôssemos ricos, ao contrário, éramos uma família de poucos recursos, eu me sentia numa posição bastante confortável para reivindicar nossos direitos de professores responsáveis e cumpridores de nossos deveres. Eu sabia que muita gente, na escola, não podia reclamar, pois temia ser dispensado. E enquanto eles teriam graves problemas com isso - faltaria leite e pão em casa, perderiam a escola para os filhos, ficariam desempregados por um monte de tempo -, eu, graças a Deus, tinha uma família na qual me sustentar. Não era eu o arrimo da família. Também me tranqüilizava a idéia de que não teria dificuldade para arrumar outra escola para dar aulas, se fosse preciso. Eu tinha uma espécie de confiança no meu potencial, e acreditava mesmo que se batesse à porta de qualquer uma das escolas que havia no bairro, eu sairia empregada. Isso era importante.
Lembro que uma vez, salário há mais de quinze dias atrasado, e o Grande Mestre, chefe-mor, veio em visita à escola. Era uma rede de escolas, e a nossa ficava situada no subúrbio do Rio, num bairro pobre, com crianças pobres, algumas com mensalidades atrasadas, é verdade. Mas nós, professores, estávamos ali, no exercício da nossa dignificante missão. Então, chegou o chefão, sorridente, elogiando nosso trabalho, perguntando se estava tudo bem. Todos sorriram, como se estivesse. No fundo, estavam todos tristes, muito tristes, mas o mais triste é que não podiam contar...
Esperei um momento em que ele estava só, no corredor, aproximei-me e ele me saudou:
- Olá, Professora! (sorrindo) Tudo bem? Que prazer!
Eu, gentilmente respondi:
- Olá, Professor! Não está tudo bem...
- Oh!... Onde está o seu sorriso, Professora?
- É, Professor... Vejo que seu sorriso está nos lábios, mas eu não tenho como sorrir... Sabe, Professor, hoje é dia x e seu salário já está no bolso há pelo menos 15 dias. Sabe o nosso, Professor? Pois é... Não chegou. Mais que isso, não há previsão.
- É, Professora... Temos aqui alguns problemas com atrasos nas mensalidades...
- Sim, mas eu sou professora de rede, não desta escola. É assim que consta da minha Carteira de Trabalho... Eu desenvolvo meu trabalho com o mesmo esmero e a mesma responsabilidade dos professores de Botafogo, por exemplo, que têm alunos que pagam em dia as mensalidades... Eles, por isso, "merecem" receber em dia... E eu?
Travou-se um rápido diálogo em que eu terminei dizendo que não concebia a idéia de, trabalhando, ter de pedir dinheiro de passagem para o meu pai... Então, que seria bom que no dia seguinte o salário estivesse na minha conta, possibilitando que eu tivesse condições de pagar minha passagem de ônibus para ir ao trabalho, ou eu não poderia ir...
Tive o cuidado de falar só em meu nome, embora estivesse ali lutando muito mais por minhas colegas do que por mim.
No dia seguinte, nosso dinheiro estava na nossa conta.
Aprendi algumas coisas, naquela oportunidade. Uma delas é que às vezes é preciso traduzir a dor do outro, mesmo que ela doa menos em você do que nele; que estar preparado - para dar a volta por cima se acontecer o pior - é fundamental; aprendi a não subestimar o poder da argumentação, sem me esquecer de que a forma como você fala é quase tão importante quanto aquilo que você fala.
Hoje, quando você se defrontar com algum problema - seu ou de alguém próximo a você e por quem você possa fazer alguma coisa -, não abaixe a cabeça. Enfrente-o. Resolva-o. Esteja preparado, porque as coisas podem não sair como você espera; não subestime o poder da argumentação; e não esqueça: concentre-se no modo e não apenas naquilo que você vai falar.
Como diria um querido amigo meu, um
Amigão...
TENHA UM BOM DIA, MAS UM BOM DIA MESMO!