Damos desculpas. Inventamos razões para não acreditar na vida, no mundo, nos outros. Não importa se pensamos que eles nos dão razão para isso; a verdade é que só entramos nessa de desacreditar quando queremos. Deliberadamente, só depende de nós. Afinal, quantas vezes um colega, uma namorada, ou um amigo vacilou com você e mesmo assim, na semana seguinte, ou um tempo qualquer depois, lá estavam vocês, novamente, de papo, abraçados, sorrindo como crianças, amoravelmente?
Dizemos que a humanidade não tem mais jeito; mas enquanto fingimos que acreditamos nisso, de fato acreditamos nela, e continuamos tendo filhos, na esperança de um mundo melhor. Dizemos que os políticos não merecem credibilidade; mas seguimos votando nas eleições, sob o argumento de que são obrigatórias, quando poderíamos pagar u'a multa de "excessivos três reais e poucos centavos"; no fundo, votamos porque ainda não inventamos uma desculpa suficientemente satisfatória e continuamos acreditando, timidamente, que o nosso candidato pode fazer a diferença.
Somos todos crentes, enquanto não criamos uma boa desculpa para não acreditar. Uma desculpa que nos convença. E a razão que encontrarmos, na verdade, nunca estará no outro, nunca vai estar lá fora. Será sempre interna. E como descrer não faz parte da nossa natureza, é preciso uma dose de esforço e energia, até para os mais pessimistas, para desacreditar, na vida, no mundo, nos outros. O problema é que, quando conseguimos, enfim, nos tornar descrentes, também nos tornamos insuportáveis, e desacreditamos em tudo, em cada coisa, em todas as pessoas.
V. (...saudades...) me dizia que devemos perdoar e recomeçar tantas vezes quantas nosso coração determine. Perdoe. Apague. Siga em frente, não importa o que digam os outros. Tantas vezes quantas quiser. Erraram? Há motivo para nunca mais acreditar? Nunca mais perdoar? Mas seu coração quer continuar acreditando? Então, apague outra vez. Perdoe. Continue o caminho, siga acreditando, ninguém manda no seu coração. Perdoe quantas mil vezes quiser. Para que nunca, nunca mesmo, exista a dúvida: e se eu tivesse dado uma outra chance?
A razão para crer e para não mais querer acreditar que a vida é bela e as gentes são boas nunca estará no outro, mas sempre dentro de você, que vai aprender, mais cedo ou mais tarde, que há imperfeição nas coisas mais perfeitas, e uma certa humanidade em tudo o que é mais divino.
Enquanto não descobre essa verdade real, o homem segue acreditando que tudo é perfeito, tudo é divino. É um chato.
E, enfim, quando percebe, pode simplesmente optar por aceitar a própria limitação e os limites do outro e continuar crendo - por isso mesmo, ou apesar disso -, ou pode lavar as mãos e tornar-se insuportável.
A vida é para todos que nascem.
A felicidade, acredite, ainda está reservada apenas aos que crêem.